quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um jornalismo cruel

Por Dalton L. C. de Almeida



“Uma história Severina”... Esse é o título de um documentário curta-metragem dirigido por Eliane Brum, jornalista famosa e amplamente premiada pela academia. Assisti ao vídeo essa terça-feira em aula na faculdade e após a exibição formou-se uma interessante discussão, fomentada por nosso professor. Que devido ao tempo escasso e a hora adiantada, ficou inacabada e superficial.

Meu posicionamento (que gerou certa “grita”) foi:


O curta é manipulativo, baixo e uma vergonha.

Naturalmente que assim - da boca para fora - minha posição aparentemente carece de uma reflexão. A seguir, através de reflexões e contextualizações, pretendo mostrar o porquê de minha opinião.

Primeiramente é importante que eu defina alguns aspectos que balizam minha personalidade e opinião. Isso colabora para a compreensão do meu posicionamento e ao mesmo tempo esclarece que parto de princípios claros.

Sou católico apostólico romano. Como tal, e como o papa, defendo a dignidade e a inviolabilidade da vida humana, mesmo que isso possa causar grandes dores emocionais a terceiros.


Dentro dessa lógica (de inviolabilidade da vida) sou obviamente contra estudo com célula- tronco embrionárias - pois matam embriões- e contra aborto, sendo dentro da gama de opções de aborto, especialmente contra o aborto de criancinhas anencéfalas.


Acredito que exista “o certo” e “o errado” no mundo. Sendo as miríades de opções adaptativas de certo e errado a cada caso ou interesse, algo do campo e lógica de reflexão relativista.

Metodologia de pensamento da qual eu naturalmente discordo.


Acredito que o certo e o errado devem ser baseados na moral judaico-cristã, direito a vida, dignidade e isonomia.


Defendo o Estado de direito e suas leis.

Defendo a laicidade do governo. Lembrando que a separação do Estado e da Igreja, não retira da última o direito a possuir um posicionamento e de o defender frente a sociedade e o Estado.
Acredito na”força do precedente”. Por isso não acredito na validade de exceções judiciais ou legais como forma/metodologia política séria e estruturalmente responsável para um Estado.


Acredito que a justiça deva ser aplicada de forma imparcial e seus preceitos não devem se submeter às pressões infligidas pela dor em escala individual ou social.


Não acredito em “justiça histórica”. Ou seja, através de injustiças no presente, “fazer justiça” a injustiças passadas. Por isso sou contra o aborto de crianças geradas como resultado a estupros. É fazer “justiça” a mãe, através de um assassinato e injustiça ao filho, devido a um histórico do qual ele não é responsável.


Acredito que a dor (como sentimento) e o sofrimento fazem parte da vida e sua existência reforça nossa humanidade. E que a exclusão ou a busca pela total exclusão de qualquer uma das duas invariavelmente leva a uma perda do sentido de humanidade. Em tempos de venda da felicidade como o objetivo máximo e “obrigatório” de vida, defender a existência da dor e seu valor vai contra a maré do que chamo de “discurso do politicamente correto”.

Vamos ao documentário:

O documentário mostra o sofrimento de uma gestante de condição financeira absolutamente pobre, em um teatro de condições que envolve o fato de ela estar grávida de uma criança anecéfala, ter o interesse declarado em fazer um aborto e de ter sido exposta a uma situação de impedimento/postergação do aborto (anteriormente autorizado) devido a um processo de rediscussão da legislação vigente pelo Superior Tribunal Federal e que “congelou” autorizações a partir de determinada data (impedindo que a gestante, anteriormente internada em um hospital, realizasse o procedimento de aborto).
Em “miúdos”. A gestante pobre e sem condições, teve um aborto já marcado, cancelado devido ao início de discussões referentes à manutenção ou não da legalidade do aborto em caso de anencefalia.

Reflexão

Ponto de partida:

Meu professor defendeu/declarou (em sala) que o documentário pretendia mostrar como decisões e eventos em altas esferas da dinâmica do país e o tempo gasto nestas disputas ideológicas, pode ser danoso e injusto para com os mais pobres e desassistidos cidadãos. Sendo o “cerne”, “justificativa”, “objetivo” do documentário, tratar desse assunto através da história de sofrimento de uma gestante, que quer abortar um bebê anencéfalo , mas encontra-se impedida pela morosidade e os efeitos colaterais dos processos de decisão da manutenção ou não da lei de aborto de anencéfalos pelo STF. (Neste caso, entra como efeito colateral, a suspensão do direito a aborto requerido pela gestante, pois a lei estava sendo rediscutida).

Meu posicionamento:

Discordo de que o objetivo do documentário seja realmente discutir sobre os efeitos colaterais da morosidade da dinâmica de poder (no caso do judiciário) e seus impactos sobre os mais fracos e desassistidos. Na verdade, acredito que essa seja a desculpa/pano de fundo para defender, por meio de instigação emocional (leia-se manipulação) nas entrelinhas, o aborto de crianças anencéfalas como forma válida de redução da dor de mulheres gestantes e que sofrem com a perspectiva de ter uma criança condenada a morte. (E indiretamente reforçar o sentido de busca da “felicidade” e supressão da dor, seja por quais meios for....e que de concessão em concessão levará a humanidade a bancarrota moral)


Porque digo isso? Bom .... o documentário é tangencial quanto a justificativa de sua existência. Os personagens até comentam (vária vezes) a respeito de como pretendiam abortar, como a mudança de legislação “abortou” esse intento, como se sentiram frustrados com essa situação e como ainda lutam para conseguir a autorização. Fica claro ao ver o documentário, que a mulher não chora ou sofre porque o processo de aborto está congelado. Isso é apenas um incômodo/atraso técnico aos objetivos dela e do marido. Ela sofre sim, e não tiro sua razão, com a perspectiva de carregar diariamente um filho com pouquíssimas chances de sobrevivência e que está invariavelmente condenado a morte. Chora porque uma mãe quer o melhor a suas crias e porque é triste, torturante e um grande peso carregar uma vida que não há de florescer. (entendo a dor, mas não considero ela justificativa para o assassinato da criança)


Reflexão secundária...

Nesse ponto já se mostra um triste paradoxo em nossa realidade. Em geral, as pessoas fazem todo o possível para postergar a dor de uma perda, tanto que expõem familiares e amigos a beira da morte a expedientes de manutenção da vida extremos, que trazem dor e sofrimento aos enfermos. Ainda sim isso é feito na tentativa de manter nesse mundo aqueles que amam. Nossa sociedade, que mantém pessoas vivas a todo o custo, vive um momento onde se prega que a melhor forma de se resolver a dor da perda de uma criança anencéfala é adiantar sua morte e se despedir o quanto antes da mesma, negando a ela o tempo de vida que lhe resta, em favor da dita “sanidade emocional e espiritual” dos pais. Irônico... e cruelmente sem sentido.


Entristeço-me ao ver a dor que passou a gestante. Mas não compartilho com ela que a solução seja matar a criança. Pois para mim, matar essa criança condenada à morte seria o mesmo que abortar uma criança qualquer que já se sabe, nascerá com alguma deficiência debilitante e que lhe cerceará anos de vida. Sou contra a lógica do sacrifício pelo “bem do sacrificado”. Principalmente quando este não foi inquirido a respeito. E porque na maioria das vezes os maiores interessados e beneficiários são terceiros. Ex: pais que querem poupar trabalho, prejuízo e dor, Estado que reduz custos, Clínicas que lucrarão com o processo de aborto etc.
Definir quem merece morrer antes de nascer é o precedente que leva a médio e longo prazo a humanidade a primores como a eugenia.


Continuando....

A jornalista na edição do documentário e na escolha das imagens, capitaliza assim a dor de uma mãe com a perspectiva da perda de um filho, para construir uma “pseudo-situação” de sofrimento por não poder abortar. A farsa na justificativa do porque se usar imagens de sofrimento, como as dos momentos anteriores ao aborto - já então autorizado pela justiça - em que ela (gestante) aparece se apoiando a uma parede com dores excruciantes, enquanto outra pessoa passa com um bebe vivo no colo, cai no momento em que mãe grita e sofre ao ver a criança morta na sala em que o aborto é realizado. Se queria tanto o aborto e sofria tanto com a não feitura do mesmo. Porque então o escândalo ao ver o filho morto? Era esse o objetivo do processo, adiantar o “destino”.


Resposta: Simples! Seu sofrimento era pela morte inevitável do filho, adiantada por ela de forma paradoxal, e não por não fazer o aborto ou porque o STF demorava em tomar uma decisão. É ali que a justificativa, capenga, do documentário para apresentar com requintes de intimidade o sofrimento da gestante simplesmente se desfaz.

O documentário também apresenta em outro momento cenas/recortes de juízes do STF em processo de discussão a respeito da liberação do aborto de crianças anencéfalas. Nesse quesito, ele (o documentário)cria uma atmosfera de isenção, ao trazer ambos lados em disputa. Mas é apenas uma “criação”. O recorte final traz a fala de um dos envolvidos no julgamento do STF, em um sentimental posicionamento, censurando o STF por dar a entender que “não tinha nada haver com o problema das mães das crianças anencéfalas”. Frase de efeito (e que escrevi entre aspas em uma redução livre do conceito central da original) que reforça o posicionamento do documentário e cria um desconforto ao espectador, gerando a perigosa reflexão “tanta discussão e uma mãe sofrendo, eles não se preocupam com isso?”. Perigosa reflexão pois o motivo da discussão é mais profundo que apenas o sofrimento de uma mulher. A discussão trata de questões, que vão do precedente jurídico à noção de direito a vida. Assuntos sequer imaginados pelos pobres e ignorantes(nesse assunto) personagens que brigam pelo direito de matar seu filho anencéfalo e que tem “representados” em si mesmos no documentário, parcela substância da população.

A seqüência de recortes de ministros do STF com o desfecho-final-dramático (obviamente escolhido a dedo), reduz a profundidade e seriedade de uma polêmica discussão. O documentário que diz-se interessado em contar um história, utiliza o sofrimento de uma mãe, como elemento de reforço para deslegitimar o democrático processo de discussão sobre a legislação no STF. Em troca do que? Claro! Da manutenção do paradigma anterior e da “inquestionabilidade” do mesmo. Pergunto. A quem isso interessa?

Através da dor e sofrimento de uma mãe, o documentário faz proselitismo disfarçado de jornalismo, na defesa do aborto como solução mais aceitável para a dor de gestantes com filhos anencéfalos. Sugere nas entrelinhas um padrão de realidade de vida, como se a anencefalia fosse um problema social exclusivo dos muito pobres. (algo que poderia ter sido evitado, com um contra-ponto de personagens ou apenas com informações extras, dando um panorama da incidência da doença frente a população e suas classes – o que faria sentido, já que o documentário se dedicou a apresentar informações extras além da história do casal).


Quanto à defesa de meu professor de que a gestante sofre uma injustiça.

Novamente discordo. ...Que injustiça? Não poder abortar? Isso é definido pela legislação e se a mesma está em discussão e portanto congelada, não existe injustiça. Aliás, ela ter um bebê anencéfalo é parte do “jogo” estatístico da vida. Alguns nascem com habilidades e aptidões que garantirão sucesso, outros com defeitos que podem abreviar a vida. Será que o fato de uns trazerem alegrias e outros tristeza, faz um ou outro menos digno de direito a vida? E a defesa dessa dignidade tornasse assim uma injustiça a mãe?


É necessário um peso e uma medida. E ele não pode ser definido de supetão sob a pressão de quem defende o “direito” de alegrias de uns em detrimento do da vida de outros.

Outras....


Há ainda outras temáticas tratadas no documentário. Que dão apoios secundários a caricaturização do casal como “vítimas”.


Como a dificuldade de compreensão por parte dos personagens da dinâmica legal ao buscar uma nova autorização para aborto. Algo natural visto a óbvia falta de estudos e estrutura dos dois, e que naturalmente é tratado como “uma barreira da sociedade ao pobre”, no melhor do estilo politicamente correto esquerdista de se ler o mundo.


Ou as dificuldades de um sistema de saúde despreparado para atender a demanda de mães autorizadas a matar seus filhos. O que deve configurar na mentalidade esquerdista um ataque a cidadania. Afinal.... Como que pode um hospital não estar 100% preparado para matar bebês??!!


Há inclusive, uma interessante hipocrisia envolvendo uma discussão de uma representante de ONG (ONG Curumim.... um belo nome para quem defende abortos) e um médico. Em que o último explica que muitos médicos se negam a fazer o procedimento de aborto e que a gestante, mesmo autorizada, terá que esperar uma janela de oportunidade. A representante da ONG começa com um “respeitamos o direito dos médicos” (pro forma dedicada ao documentário) e termina com um “mas temos uma autorização e a instituição é obrigada a fazer o procedimento”.


Interessante... e se todos os médicos se negassem? Ela continuaria respeitando a decisão deles, mas ao mesmo tempo forçaria “a instituição” (que é feita por médicos), nem que fosse com a polícia, para alguém cometer o assassinato? Irônico. E um exemplo de sinal dos tempos. Uma ONG voltada à vida, brigando ferrenhamente pelo direito de se matar seres vivos e indefesos.


Em resumo:


O documentário é em minha opinião manipulativo porque capitaliza a natural empatia do público com o sofrimento da gestante (sob a desculpa de uma justificativa de foco falsa), com o objetivo de convencê-lo de que o aborto de crianças anencéfalas é a solução para esse sofrimento.Quando não é. Abortar ou não, não mudará o fato de que essas mães que perderão os filhos hão de sofrer.
O documentário é baixo, porque utilizasse da dor e da ignorância de seus personagens para fazer proselitismo mascarado.


O documentário é uma vergonha. Pois embora em jornalismo a isenção total e completa seja algo utópico. A manipulação e o uso de pessoas para fins ideológicos é anti-ético.

O documentário é um ótimo exemplo de jornalismo com intenções cruéis, mascarado de sensível e engajado, ao se dizer focado em “apenas em contar uma história” e “criticar os efeitos colaterais de uma estrutura social”.


Mais um produto ideológico, que a meu ver, cheira ao ranço da justificadamente temida eugenia.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

Relembrando as Vítimas do Comunismo

Por Gutierres Siqueira

Paulo Francis dizia que o Brasil é o único país do mundo que leva o comunismo a sério. Creio que sim. Nossa síndrome vila lata, conforme dizia o grande dramaturgo Nelson Rodrigues, os brasileiros não acompanharam de perto os males causados pelo comunismo. Na tentativa de justificar a miséria moral culpando os outros, os comunistas esquecem que uma ideologia que valoriza mais a igualdade do que a liberdade acaba em tirania. Logo porque a igualdade é utopia, mas a liberdade é possível. Veja esse vídeo:

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Meus pensamentos politicamente incorretos em axiomas

Por Gutierres Siqueira

“O Brasil não é um país sério”, frase do ex-presidente francês Charles de Gaulle. “O Brasil é o país do futuro”, frase do escritor austríaco Stefan Zweig. O nosso país tem a plena capacidade de transitar entre as duas frases.

Já estão fazendo a campanha: “Vamos acabar com os homens para preservar o meio ambiente”!

Não existe nada mais cafona do que um europeu dançando samba ao lado de uma mulata seminua. Ele deve pensar: “Ah, Brasil, o grande prostíbulo do mundo. Que alegria”!

É patético ver membros da classe média reclamando da violência, enquanto seus filhos consomem a maconha que alimenta o tráfico nas favelas.

Funk é subcultura. Sim, subcultura existe. É aquilo que rebaixa o humano na categoria de animal. No caso do funk, o animal é sexualmente faminto e violento.

O atraso no Brasil é chamado de “progressismo”. Os “progressistas” analisam o mundo segundo os óculos sociais do século XIX. Quem ousa discordar é um reacionário.

Os ultranacionalistas, adeptos do antiamericanismo bocó, querem abolir as palavras inglesas da nossa língua. Por que, então, não abolem as palavras “dama”, “madame”, “moda” que são derivadas do francês? Por que, então, não abolem a palavra italiana “pizza” do nosso vocabulário?

Antigamente, quando um aluno recebia nota fraca, logo recebia uma correção dos pais. Hoje, quando a aluno vai mal, a culpa é do professor. Ainda por cima, o pai vai ameaçar a escola e o docente.

Os pacifistas não suportam a ideia que a guerra pode conduzir para a paz. Talvez eles negociassem com Hitler, e ele se convenceria. Ou não?

Cotas para negros e índios é uma forma de segregação. Quem acredita em cotas, acredita em raças. Ora, raças não existem. Raça é uma invenção dos racistas.

A África precisa de democracia e livre comércio. A África não necessita das lamentações daqueles que tentam justificar a barbárie na luta anti-imperialista.

O capitalismo é um demônio para as tropas esquerdistas. O capitalismo de Estado, braço financeiro do totalitarismo, é louvado e adorado.

O bom senso está em extinção. Quantas vezes ouviremos música alta que não pedimos para ouvir?

Movimento social é outro nome para organizações burocráticas, personalistas, corruptas e de tendências autoritárias. Dizem representar o povo, mas na verdade representam interesses de uma “elite” sanguessuga.

Não vai demorar muito para que os corretores políticos proíbam o Natal para não ofender as outras religiões.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Lula e os ditadores

Por Gutierres Siqueira


Leia reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, na edição desse sábado. Comento no final.

Brasil se abstém de votar contra Irã e Coreia

Adriana Carranca

A Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou ontem duas resoluções contra a violação de direitos humanos no Irã e na Coreia do Norte. Em ambas, o Brasil se absteve, sob o argumento de dar prioridade ao diálogo e cooperação à pressão sobre os países. Com projeção cada vez maior no exterior e prestes a assumir, em 2010, uma vaga rotativa no Conselho de Segurança da ONU, o Brasil está na mira dos países democráticos e entidades internacionais.

Eles exigem uma posição mais firme do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a tortura, prisões arbitrárias, execuções extrajudiciais e a falta de liberdade e Justiça da qual Irã e Coreia do Norte são acusados. "As abstenções são inaceitáveis. Mostram a tendência cada vez mais clara de que o Brasil não quer se posicionar sobre a violação dos direitos humanos em países específicos", diz a coordenadora de relações internacionais da organização Conectas Direitos Humanos, Lucia Nader.

No discurso, o Brasil reconhece as violações, mas prefere levar o debate para o Conselho de Direitos Humanos (CDH). "Temos privilegiado a revisão periódica dos países no CDH", disse ao Estado um a fonte do Itamaraty em Brasília. Esse ano, porém, o Brasil também se absteve de votar em uma resolução do CDH sobre violações na Coreia do Norte.

As acusações contra o Irã referem-se, principalmente, ao período após as eleições presidenciais, em junho, em que o presidente Mahmoud Ahmadinejad conseguiu um segundo mandato. Partidários do reformista Mir-Hossein Mousavi foram às ruas protestar contra possíveis fraudes. O governo respondeu com prisões sem julgamento, perseguição aos meios de comunicação e detenção de funcionários de embaixadas, segundo o texto da resolução a ONU.

O documento cita a condenação de menores de 18 anos à pena de morte e a perseguição de ativistas, jornalistas e advogados como violações permanentes no Irã e refere-se à minoria Baha"i, que teve sete líderes presos entre março e maio de 2008. "Aceitamos a soberania dos países, mas os direitos humanos não podem ser relativizados", diz Flávio Rassekh, representante da fé Baha"i em São Paulo.

A votação de uma terceira resolução, contra Mianmar (ex-Birmânia), prevista para ontem foi adiada. A tendência é a de que o Brasil se abstenha de novo, mantendo seu voto na comissão da ONU onde as resoluções foram aprovadas antes de levadas à Assembleia-Geral. A polêmica política de abstenção do Brasil deu-se em votações anteriores sobre violações de direitos humanos na Bielo-Rússia, Chechênia, China, Congo, Sri Lanka e Sudão.

Comentário:

Os fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) nunca amaram a democracia. Eles a usam para solapá-la. Não é à toa que o presidente Lula e os seus diplomatas apoiam as piores ditaduras do mundo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Cenário incompleto tira elegância de retrospectiva de Woody Allen


Por Dalton L. C. de Almeida

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) está encravado no centro velho de São Paulo em um prédio de porte respeitável e de arquitetura híbrida que comporta estilos como rococó, greco-romano, clássico, vitoriano e francês. Durante o fim de semana de 28 e 29 de novembro, a retorpectiva "A Elegância de Woody Allen"contou com um público maior e ingressos mais concorridos, mas durante a semana o Centro Cultural apresentou uma procura média de ingressos e nas tardes dos dias úteis uma lotação parcial da sala de exibição.
Não há do que reclamar na estrutura do CCBB à primeira vista - amplo, bem iluminado e resfriado por um potente sistema de ar condicionado -, o local é um agradável oásis de conforto em meio a uma cidade que nas últimas semanas de novembro e dezembro vem sendo castigada por altas temperaturas e fortes chuvas. O atendimento também agrada: os funcionários são educados e eficientes. Os pontos negativos são os resquícios da desmontagem da última exposição, sujeitando o público a desagradáveis cheiros de tinta nova e uma visão nada artística de plásticos-bolha, fitas e escadas.

Embora os horários de exibição dos filmes da mostra sejam respeitados com rigor (e ninguém entra depois de a sessão começar), no primeiro andar, onde se encontra a sala de projeção, a fila para entrada é organizada em um corredor junto ao vão central do prédio, em que os interessados em bons lugares precisam aguardar de pé, expostos ao mau cheiro da tinta.
As condições do cinema - cadeiras, qualidade de imagem e som, isolamento sonoro e temperatura - são irrepreensíveis e confortáveis, desde que o telespectador não tenha mais de 1m70 de altura, pois o espaçamento entre as fileiras de cadeiras, embora não seja pequeno é com certeza desconfortável para pernas levemente mais longas que a média nacional.
Pouco antes da exibição do filme, em todas as sessões, um funcionário do CCBB, de forma educada e robótica avisa, os presentes a respeito das oficinas sobre Woody Allen organizadas para o mês de dezembro e sobre a possibilidade da troca de cinco ingressos de sessões distintas da mostra por um livro sobre o cineasta. Um brinde de ótima qualidade e bom gosto, por sinal.

Em geral a estrutura do CCBB para exibições é suficiente, deixando apenas a desejar no quesito "extras", sendo que estes poderiam ser desde uma pequena mostra fotográfica a painéis com mais informações a respeito do cineasta.

Importante ressaltar que a estrutura que será apresentada em dezembro com o inicio das oficinas a respeito do cineasta provavelmente será melhor, mas é claramente desagradável ao público a impressão de ir a uma exposição cinematográfica que parece um "tapa buraco" no cronograma do Centro Cultural. Isso pode influenciar negativamente a opinião geral sobre a visita, o que não é justo com a obra cinematográfica de Woody Allen, que em si já conta com variações de complexidade e temática suficientes para dificultar a um público leigo a definição de um posicionamento de apreço ou não.No geral até o momento a retrospectiva se mostra mediana em questões de infraestrutura.

Serviço:

Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo
De 18 de novembro a 13 de dezembro de 2009
Rua Álvares Penteado, 112, Centro Ingresso: R$ 4 e R$ 2 (meia entrada)
Telefone: (11) 3113-3651 / 3113-3652

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Mudanças diplomáticas

Por Gutierres Siqueira

Na era do lulismo, a diplomacia brasileira opta pela política Sul-Sul, causando polêmicas diante do enfraquecimento no discurso democrático, e por suas alianças com nações que não respeitam os direitos humanos

Na última segunda-feira, o Brasil recebeu o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, sob protestos de judeus, homossexuais, cristãos, feministas e até dos congressistas americanos, tanto democratas como republicanos. A rápida visita selou alianças comerciais e apoio mútuo aos interesses de ambos os presidentes. Luiz Inácio Lula da Silva apoiou o uso pacífico da energia nuclear iraniana, enquanto Mahmoud Ahmadinejad apoiou o interesse do Brasil por uma vaga permanente no Conselho de Segurança do ONU. A visita mostra uma nova faceta da diplomacia adotada no governo Lula, denominada de “política Sul-Sul”, ou seja, aproximação crescente com os interesses de países subdesenvolvidos e emergentes.

Nessa nova postura, o Brasil se afasta da diplomacia americana. Ainda nessa semana, o Brasil entrou em conflito com os Estados Unidos na resolução do impasse em Honduras. O Itamaraty, desde o início, apoiou o presidente deposto Manuel Zelaya, enquanto recusou qualquer negociação com o governo interino de Roberto Micheletti. Hoje, o governo americano defende as eleições como solução do conflito, mesmo sem a restituição de Zelaya. Para o governo brasileiro, alinhado com os vizinhos bolivarianos, é inaceitável a aceitação do pleito em Honduras sem a restituição do ex-presidente. Em entrevista coletiva, nessa terça-feira, o assessor especial para assuntos internacionais da presidência da República, Marco Aurélio Garcia, chegou a falar em “certa decepção” para com a política externa do presidente Barack Obama. "Todo aquele clima favorável, que se criou com a eleição do presidente Obama, que se fortaleceu na reunião de Trinidad e Tobago (Cúpula das Américas), começa a se desfazer um pouco", disse Garcia.

As falta de sintonia com os Estados Unidos não se restringe a Honduras. Nos últimos meses, o acordo militar entre os Estados Unidos e a Colômbia casou irritação dos governos sul-americanos, especialmente do Equador, Bolívia e Venezuela, de Hugo Chávez. O Brasil cobrou “garantias de não ingerência” dos dois governos. Ao mesmo tempo, a Venezuela comprova armas da Rússia, mas não recebeu reprovação do presidente brasileiro. Diante desse quadro, o senador oposicionista Álvaro Dias (PSDB-PR) escreveu que a política externa brasileira tem adotado “dois pesos e duas medidas” na América Latina: “Causa estranheza a postura adotada pelo presidente Lula: sem pestanejar, questionou o acordo discutido entre Bogotá e Washington, e ao mesmo tempo se omite diante de fatos graves ocorridos no nosso entorno (...) não houve nenhuma manifestação sobre a apreensão, pelas autoridades colombianas, de armas em poder das FARC, artefatos bélicos ven didos pela Suécia ao governo da Venezuela há décadas. Igualmente silenciou sobre o envolvimento financeiro das FARC na campanha presidencial do presidente do Equador, Rafael Correa. Em nenhum momento houve uma condenação das investidas das FARC. A retórica palaciana sempre evitou qualificar o caráter criminoso das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia”.

Mudanças paradigmáticas

Mesmo elogiada por ter conquistado espaço para o Brasil em alguns dos principais fóruns mundiais, a diplomacia brasileira também tem sido criticada pelo excesso de pragmatismo. A aproximação crescente com os interesses de países subdesenvolvidos e emergentes trouxe certos embaraços para um país que defende a democracia. Em reuniões diversas, o presidente Lula sentou ao lado de ditadores, como no Robert Gabriel Mugabe, ditador desde 1980 no Zimbábue, e Muammar Kadafi, que governa a Líbia desde 1969. Nesse sentido, o Brasil tomou medidas nada alinhadas com a tradição de respeito aos direitos humanos.

Em maio de 2005, o Brasil realizou, pela primeira vez, a cúpula América do Sul-Países Árabes. Nenhum país árabe era ou é democrático. Ao mesmo tempo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou vários países do Oriente Médio, com exceção de Israel, a única democracia da região. Ainda em 2005, o Brasil negara-se a condenar o governo do Sudão por proteger uma milícia islâmica radical, que praticou os massacres de Darfur. O Brasil deixou de apoiar o brasileiro Márcio Barbosa, para ratificar a candidatura de Farouk Hosni, ministro da Cultura do Egito, para a diretoria-geral da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Hosni afirmou que queimaria livros hebraicos se os encontrasse na biblioteca de Alexandria.

Muito dessa mudança na política externa é atribuída ao embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, diplomata de carreira no Itamaraty. Hoje, Guimarães ocupa a cadeira da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Acusado de antiamericano, Guimarães só vê divergências com os americanos: “Os EUA são o país mais importante do mundo. Em todas as questões, a posição americana é muito importante, fundamental. Meio ambiente, comércio, questões militares, políticas. Mas a visão dos EUA às vezes é diferente da do Brasil, isso não tem nada de mais. Agora, em muitas ocasiões do passado, as pessoas julgaram que era conveniente para o Brasil se alinhar com os EUA de uma forma, na minha opinião, excessiva”, disse em entrevista para a revista Carta Capital.

Confusão entre política de Estado e política do partido

Há uma confusão entre políticas de Estado, com políticas de partido. Essa é a opinião do ex-ministro da Fazenda e embaixador Rubens Ricupero. "O governo está moldando o perfil com o qual quer entrar para a História. A política exterior tornou-se mais identificada ao governo e também a seu partido, o PT. Não está mais identificada ao Estado", afirmou Ricupero ao jornal “O Estado de S. Paulo”. Para ele, isso explica a guinada esquerdista no Itamaraty. “Se há um ponto na política brasileira que encontrou um consenso de todas as correntes de pensamento, esse ponto é exatamente a política externa levada a efeito pelo Itamaraty (...) Esse consenso não existe mais", completou Ricupero, que hoje preside a Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e o Instituto Fernand Braudel.

Diante da nova visibilidade internacional do Brasil, o país precisa optar por caminhos diplomáticos mais firmes. Para isso, precisa pautar sua política pela democracia e direitos humanos, como sempre fez nesses vintes anos de democratização. Ou seja, é a hora do Brasil buscar a posição que definirá sua política no mundo. Qualquer escolha agora terá influencia por muitos anos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Terceira Via

Por Gutierres Siqueira

Acompanhe o Twitter do Programa Terceira Via. Esse projeto é feito por alunos da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (FAPCOM), que em um estúdio de televisão da faculdade, farão entrevistas políticas.

No primeiro programa contaremos com a presença do vereador José Police Neto (PSDB), líder governista na Câmara Municipal de São Paulo (SP) e também, com a subprefeita Soninha Francine (PPS).

Participe mandando perguntas por meio dos comentários desse blog ou no twitter.

O Terceira Via acontecerá no dia 19/10, às 19h00, na FAPCOM. Infelizmente não aberto para o público.

Não deixe de acompanhar no twitter e depois os vídeos aqui postados.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Jovens inconformados com a mediocridade intelectual do Brasil criam revista cultural

Por Gutierres Siqueira

A revista semestral “Dicta & Contradicta” nasceu em junho de 2008 e já faz sucesso nas livrarias paulistas

Alguns jovens, com formação universitária diversa, resolveram criar um grupo de estudo filosófico. Inconformados com o pequeno espaço de estudo crítico no Brasil,Guilherme Malzoni da Motta Rabello e os seus amigos Henrique Elfes, Joel Pinheiro da Fonseca, Júlio Lemos, Luiz Felipe Estanislau do Amaral, Marcelo Consentino, Marcello Nébias Pilar, Martim Vasques da Cunha, Renato José de Moraes, Rodolfo Britto e Rodrigo Duarte Garcia passaram a se reunir e estudar primeiramente o platonismo. Daí nasceu o Instituto de Formação e Educação (IFE) em 2004. O trabalho cresceu e o grupo formou corpo, sendo que desde junho de 2008, a revista cultura-filosófica “Dicta & Contradicta” é a expressão escrita do grupo.

Guilherme Rabello, engenheiro naval formado pela Politécnica da USP é hoje o presidente do Instituto. O jornalista Martim Vasques responde pela revista. Além de um engenheiro naval e um jornalista, o Instituto conta com formados em direito, economia, administração de empresas e letras. Em comum, o fato de todos serem apaixonados pelo estudo aprofundado da filosofia e cultura ocidental. A idade também chama a atenção, pois todos estão na faixa de idade que varia entre 23 e 33 anos. A única exceção é Henrique Elfes, formado em Letras pela PUC-PR, com a idade de 50 anos.

A revista “Dicta & Contradicta” chama atenção pelo tamanho. Com mais de 200 páginas e com aspecto de livro, apresenta um conteúdo denso, porém sem academicismo. O sucesso da revista pode ser verificada na alta procura na Livraria Cultura, uma das distribuidoras do material. Rabello comemora o sucesso: “Há um ano, quando lançamos o número um, pensávamos em vender algo em torno de 500 exemplares. De cara, vendemos 1.000 nos primeiros meses e esse número está aumentando”.

Hoje a “Dicta & Contradicta” está em sua terceira edição. O quarto exemplar sairá em dezembro. Nesses primeiros números a revista já entrevistou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em uma conversa rara, falou muito de sua vida pessoal e intelectual e menos de opiniões políticas. A Dicta também entrevistou o famoso maestro Roberto Minczuk, regente titular da Orquestra Sinfônica Brasileira. As edições contam com grandes artigos de famosos colunistas, como o cronista português João Pereira Coutinho, o filósofo Luiz Felipe Pondé, o poeta Nelson Ronny Ascher e o filósofo conservador Olavo de Carvalho. Há também textos sobre grandes nomes, com os filósofos e jornalistas culturais Mário Ferreira dos Santos, Eric Voegelin e G. K. Cherteston.

Os jovens não definem a revista segundo ideologias. Para Rabello, sequer há um grande pensador que influencie todos os integrantes da Dicta: “Existem certamente vários interesses comuns, como por exemplo a filosofia que inicialmente nos uniu. Mas o fato é que não há uma linha coerente nas influências”. No Instituto de Formação e Educação, os membros da revista ministram cursos na área filosófica e cultural, como sobre “Literatura na Modernidade” e a “História da Felicidade”. O IFE está totalmente atrelado nos planos da Dicta, Rabello explica: “O grupo surgiu por um interesse em comum por filosofia, mas o que motivou a fundação do IFE e a publicação da Dicta foi à constatação de que havia uma carência no Brasil de instituições voltadas à formação intelectual de alto nível. Nesse sentido, a Dicta é apenas um dos passos de nosso projeto, que está totalmente centrado numa preocupação de longo prazo. Nosso objetivo é mostrar que é possível e economicamente viável criar uma instituição voltada à produção e divulgação de um pensamento sério”.

Depois do sucesso inicial da Dicta, já começou a surgir revistas parecidas no mercado. O Instituto Moreira Salles lançou nesse ano a revista “Serrote”. A “Serrote” também apresenta um conteúdo cultural denso e é em formato de livro, com várias páginas. Em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo, o jornalista Flávio Pinheiro, responsável pela “Serrote” nega que exista uma imitação da Dicta: “Alimento a ideia de uma revista de ensaios como a ‘Serrote’ há anos. Nessa área ninguém vai inventar a roda. Revistas de ensaio já existiram aqui há décadas e há inúmeros exemplos em diversos países”.

Fato é que o público brasileiro ganhou bastante com o lançamento de revistas culturais, como “Piauí”, “Dicta & Contradicta” e mais recentemente a “Serrote”, que vem preenchendo uma lacuna de jornalismo denso e bem pesquisado, algo não tão comum na cultura tupiniquim. A Dicta vai longe aos seus objetivos, já que por meio de um instituto tem planos educacionais mais amplos: “sentimos a carência de instituições que assumam a tarefa de educar nos valores básicos do ser humano e na grande cultura clássica e humanística. Esta é a lacuna que queremos suprir, não dando uma ‘buzinada’ de um instante, mas de maneira permanente”, diz assim os seus editores.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O ensino de economia no mundo pós-crise

Por Gutierres Siqueira

Como a crise econômica tende a afetar a predominância de teorias econômicas no mundo acadêmico: Uma maior presença keynesiana em detrimento do neoliberalismo

A quebra do Lehman Brothers marcou o início da crise financeira e econômica que abalou o mundo em setembro de 2008. O então quarto maior banco de investimentos especulava com 600 bilhões de ativos financeiros, que eram baseados somente em 15 bilhões de capital próprio. O negociante principal do banco era o Tesouro americano no mercado de ações mobiliárias. Com os prejuízos advindos da crise dos subprimes das hipotecas, a instituição pediu concordata.

A crise das hipotecas começou em 1993. O presidente democrata Bill Clinton, em busca de popularidade e votos do eleitorado negro e hispânico, afrouxou as regras de empréstimos imobiliários voltados às pessoas de baixa renda. Os bancos, como o Lehman Brothers começaram a fazer empréstimos para quem não poderia pagar. Bill Clinton, também, em 1999 revogou a lei Glass-Steagall Act, que proibia bancos comerciais de fazer operações de alto risco, que eram já bem presentes nos bancos de investimento.

No governo republicano de George W. Bush, o déficit americano aumentou bastante para a sustentação de duas frentes militares no Oriente Médio. Além disso, Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (FED, o banco central americano) baixou os juros de 6% em 2001, para 1% em 2003, mantendo-os baixos todos esses anos. Com os juros baixos, os americanos compraram demasiadamente, impulsionando um excepcional crescimento no mundo todo, ao mesmo tempo em que aumentava o nível de endividamento das famílias.

Ou seja, muitos foram os fatores que contribuíram para a crise. Esquerdistas em todo o planeta profetizavam a queda do capitalismo e diziam que a concordada do Lehman Brothers equivalia para a economia de mercado, o que a queda do muro de Berlim simbolizou para a derrocada socialista. Estes mesmos opositores em suas diversas correntes e social-democratas não demoraram em acusar o liberalismo pela grande crise, pois segundo eles a falta de regulação dos mercados é a gênese da anarquia financeira. Os liberais, em contrapartida, acusam como irresponsáveis as intervenções dos governos via Banco Central e os incentivos a compra de casa como elementos decisivos na gravidade dessa crise.

Os governos reagiram à crise invocando o economista John Maynard Keynes. Com os Estados Unidos a frente, impulsionando a locomotiva do keynesianismo, a economia mundial passou a receber mais investimentos estatais em infraestrutura, entre outros gastos não permanentes. Europa, China e outros emergentes seguiram a linhas dos investimentos estatais. O Brasil também invocou Keynes, mas aproveitou para aumentar os gastos permanentes, como o aumento do funcionalismo público.

A teoria econômica que mostrou mais força no mundo pós-crise certamente é o keynesianismo. Até mesmo a Universidade da Califórnia, berço de neoliberalismo de Milton Friedman começou recentemente a promover debates sobre a crise econômica, abordando várias teorias. Alguns economistas keynesianos, como Joseph E. Stiglitz ganharam mais espaço no noticiário e nas faculdades. Para Paul Krugman, economista ganhador do Prêmio Nobel de 2008 e articulista do jornal The New York Times, Keynes ganhou maior importância: “Keynes é ainda mais importante agora do que o foi há 50 anos. Não sei se os economistas, em geral, se tornarão keynesianos de novo, mas passei a levar muito a sério as questões de tipo keynesiano, se assim se pode dizer. É claro que Lord Keynes não era um profeta sagrado. Ele pode ter colocado as perguntas certas, mas cabe a você, sempre, ter de encontrar as suas próprias respostas”.

Há quem não considere a existência de um novo paradigma econômico nas universidades. Para o professor Vinícius Carrasco, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), “só uma há teoria econômica, aquele que é ensinada em todas as escolas de economia do mundo”. O professor Luis Henrique Braido, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), o importante é consolidar o que já vem sendo ensinado, pois a economia é uma ciência baseado no método científico: “A abordagem desses temas baseia-se no método científico, que enaltece a dedução lógica formal e o confronto de suas conclusões com fatos observáveis. A utilização desse método permitiu à civilização ocidental alcançar notável progresso tecnológico nos últimos séculos”.

O complexo de luta contra o neoliberalismo

Algumas escolas de economia, como a Universidade de Bolonha (Espanha) estão mudando o seu currículo, pois acreditam que a economia neoclássica influencia negativamente no comportamento especulativo irresponsável, criando a gênese de bolhas e novas crises. Para os professores portugueses Fernando Alexandre e Pedro Bação, isso é um exagero, pois mudanças drásticas no currículo são fruto de um pensamento equivocado, que mostra universidade acreditando em alunos “tábuas rasas”, que absorveriam de modo acrítico o ensino: “esta visão tem na sua origem a ideia de que o ensino superior tem a capacidade de criar ‘homens novos’ com as características desejadas pelos seus criadores, desde que estes lhes ensinem os comportamentos corretos. Pensamos que a história recente já contrariou de forma clara a hipótese de que é possível controlar a natureza humana pela educação”. Portanto, segundo esse teóricos, não é necessário o abandono do ensino liberal nas universidades, pois ele não é culpado pela crise.

Para o historiador britânico Tony Judt, em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo, o neoliberalismo perderá espaço e acabará a sua hegemonia. Acusado de fomentador da crise econômica, a economia ortodoxa verá mais defensores de intervenção estatal: “Creio que, nos próximos dez anos, veremos uma renovação das discussões de políticas públicas que aceitam descrever temas sociais e iniciativas de governo sob perspectivas mais amplas, mais éticas ou políticas, se quiser. O que acontece agora nos EUA, o debate sobre o sistema de saúde, talvez seja uma das últimas consequências da onda economicista”.

Apesar dessa possível derrocado do neoliberalismo, o sociólogo sueco Göran Therborn não acredita em uma resposta antiliberal: “A crise significa a morte do neoliberalismo, como a crise dos anos 30 foi a morte do liberalismo, mas isso não significa que ele não possa ressuscitar. Até agora, não há alternativa abrangente”. Enquanto isso, o economista da Universidade da Califórnia, Gary Becker, acredita que o mundo pós-crise ainda será liberal: “Os princípios fundamentais da liberdade de mercado, que foi o que trouxe a cultura ocidental até este estágio de desenvolvimento, vão permanecer inabaláveis”.

Fato é que as faculdades de economia continuarão em suas tendências, sejam elas mais liberalizantes ou estatizantes. A crise econômica provocou maiores debates, mas sem necessariamente mudanças estruturais nos cursos acadêmicos.