O curta é manipulativo, baixo e uma vergonha.
Naturalmente que assim - da boca para fora - minha posição aparentemente carece de uma reflexão. A seguir, através de reflexões e contextualizações, pretendo mostrar o porquê de minha opinião.
Primeiramente é importante que eu defina alguns aspectos que balizam minha personalidade e opinião. Isso colabora para a compreensão do meu posicionamento e ao mesmo tempo esclarece que parto de princípios claros.
Sou católico apostólico romano. Como tal, e como o papa, defendo a dignidade e a inviolabilidade da vida humana, mesmo que isso possa causar grandes dores emocionais a terceiros.
Metodologia de pensamento da qual eu naturalmente discordo.
Defendo a laicidade do governo. Lembrando que a separação do Estado e da Igreja, não retira da última o direito a possuir um posicionamento e de o defender frente a sociedade e o Estado.
Acredito na”força do precedente”. Por isso não acredito na validade de exceções judiciais ou legais como forma/metodologia política séria e estruturalmente responsável para um Estado.
Vamos ao documentário:
O documentário mostra o sofrimento de uma gestante de condição financeira absolutamente pobre, em um teatro de condições que envolve o fato de ela estar grávida de uma criança anecéfala, ter o interesse declarado em fazer um aborto e de ter sido exposta a uma situação de impedimento/postergação do aborto (anteriormente autorizado) devido a um processo de rediscussão da legislação vigente pelo Superior Tribunal Federal e que “congelou” autorizações a partir de determinada data (impedindo que a gestante, anteriormente internada em um hospital, realizasse o procedimento de aborto).
Em “miúdos”. A gestante pobre e sem condições, teve um aborto já marcado, cancelado devido ao início de discussões referentes à manutenção ou não da legalidade do aborto em caso de anencefalia.
Reflexão
Ponto de partida:
Meu professor defendeu/declarou (em sala) que o documentário pretendia mostrar como decisões e eventos em altas esferas da dinâmica do país e o tempo gasto nestas disputas ideológicas, pode ser danoso e injusto para com os mais pobres e desassistidos cidadãos. Sendo o “cerne”, “justificativa”, “objetivo” do documentário, tratar desse assunto através da história de sofrimento de uma gestante, que quer abortar um bebê anencéfalo , mas encontra-se impedida pela morosidade e os efeitos colaterais dos processos de decisão da manutenção ou não da lei de aborto de anencéfalos pelo STF. (Neste caso, entra como efeito colateral, a suspensão do direito a aborto requerido pela gestante, pois a lei estava sendo rediscutida).
Meu posicionamento:
Discordo de que o objetivo do documentário seja realmente discutir sobre os efeitos colaterais da morosidade da dinâmica de poder (no caso do judiciário) e seus impactos sobre os mais fracos e desassistidos. Na verdade, acredito que essa seja a desculpa/pano de fundo para defender, por meio de instigação emocional (leia-se manipulação) nas entrelinhas, o aborto de crianças anencéfalas como forma válida de redução da dor de mulheres gestantes e que sofrem com a perspectiva de ter uma criança condenada a morte. (E indiretamente reforçar o sentido de busca da “felicidade” e supressão da dor, seja por quais meios for....e que de concessão em concessão levará a humanidade a bancarrota moral)
Nesse ponto já se mostra um triste paradoxo em nossa realidade. Em geral, as pessoas fazem todo o possível para postergar a dor de uma perda, tanto que expõem familiares e amigos a beira da morte a expedientes de manutenção da vida extremos, que trazem dor e sofrimento aos enfermos. Ainda sim isso é feito na tentativa de manter nesse mundo aqueles que amam. Nossa sociedade, que mantém pessoas vivas a todo o custo, vive um momento onde se prega que a melhor forma de se resolver a dor da perda de uma criança anencéfala é adiantar sua morte e se despedir o quanto antes da mesma, negando a ela o tempo de vida que lhe resta, em favor da dita “sanidade emocional e espiritual” dos pais. Irônico... e cruelmente sem sentido.
Definir quem merece morrer antes de nascer é o precedente que leva a médio e longo prazo a humanidade a primores como a eugenia.
A jornalista na edição do documentário e na escolha das imagens, capitaliza assim a dor de uma mãe com a perspectiva da perda de um filho, para construir uma “pseudo-situação” de sofrimento por não poder abortar. A farsa na justificativa do porque se usar imagens de sofrimento, como as dos momentos anteriores ao aborto - já então autorizado pela justiça - em que ela (gestante) aparece se apoiando a uma parede com dores excruciantes, enquanto outra pessoa passa com um bebe vivo no colo, cai no momento em que mãe grita e sofre ao ver a criança morta na sala em que o aborto é realizado. Se queria tanto o aborto e sofria tanto com a não feitura do mesmo. Porque então o escândalo ao ver o filho morto? Era esse o objetivo do processo, adiantar o “destino”.
O documentário também apresenta em outro momento cenas/recortes de juízes do STF em processo de discussão a respeito da liberação do aborto de crianças anencéfalas. Nesse quesito, ele (o documentário)cria uma atmosfera de isenção, ao trazer ambos lados em disputa. Mas é apenas uma “criação”. O recorte final traz a fala de um dos envolvidos no julgamento do STF, em um sentimental posicionamento, censurando o STF por dar a entender que “não tinha nada haver com o problema das mães das crianças anencéfalas”. Frase de efeito (e que escrevi entre aspas em uma redução livre do conceito central da original) que reforça o posicionamento do documentário e cria um desconforto ao espectador, gerando a perigosa reflexão “tanta discussão e uma mãe sofrendo, eles não se preocupam com isso?”. Perigosa reflexão pois o motivo da discussão é mais profundo que apenas o sofrimento de uma mulher. A discussão trata de questões, que vão do precedente jurídico à noção de direito a vida. Assuntos sequer imaginados pelos pobres e ignorantes(nesse assunto) personagens que brigam pelo direito de matar seu filho anencéfalo e que tem “representados” em si mesmos no documentário, parcela substância da população.
A seqüência de recortes de ministros do STF com o desfecho-final-dramático (obviamente escolhido a dedo), reduz a profundidade e seriedade de uma polêmica discussão. O documentário que diz-se interessado em contar um história, utiliza o sofrimento de uma mãe, como elemento de reforço para deslegitimar o democrático processo de discussão sobre a legislação no STF. Em troca do que? Claro! Da manutenção do paradigma anterior e da “inquestionabilidade” do mesmo. Pergunto. A quem isso interessa?
Através da dor e sofrimento de uma mãe, o documentário faz proselitismo disfarçado de jornalismo, na defesa do aborto como solução mais aceitável para a dor de gestantes com filhos anencéfalos. Sugere nas entrelinhas um padrão de realidade de vida, como se a anencefalia fosse um problema social exclusivo dos muito pobres. (algo que poderia ter sido evitado, com um contra-ponto de personagens ou apenas com informações extras, dando um panorama da incidência da doença frente a população e suas classes – o que faria sentido, já que o documentário se dedicou a apresentar informações extras além da história do casal).
Novamente discordo. ...Que injustiça? Não poder abortar? Isso é definido pela legislação e se a mesma está em discussão e portanto congelada, não existe injustiça. Aliás, ela ter um bebê anencéfalo é parte do “jogo” estatístico da vida. Alguns nascem com habilidades e aptidões que garantirão sucesso, outros com defeitos que podem abreviar a vida. Será que o fato de uns trazerem alegrias e outros tristeza, faz um ou outro menos digno de direito a vida? E a defesa dessa dignidade tornasse assim uma injustiça a mãe?
Outras....
O documentário é baixo, porque utilizasse da dor e da ignorância de seus personagens para fazer proselitismo mascarado.
O documentário é um ótimo exemplo de jornalismo com intenções cruéis, mascarado de sensível e engajado, ao se dizer focado em “apenas em contar uma história” e “criticar os efeitos colaterais de uma estrutura social”.

