terça-feira, 28 de julho de 2009

Os malditos vícios

Por: Dalton L. C. de Almeida

Se há uma coisa que o cérebro humano é eficiente em criar como subproduto de toda a sua, até o momento, quase incomensurável complexidade e que desafia diariamente milhares e milhares de cientistas por todo o mundo a entender seus processos bioelétricos em lóbulos, áreas, zonas, campos e reentrâncias, são os vícios.
A diversidade de vícios é também mais surpreendente do que a maioria pode imaginar. Existindo vícios em álcool, tabaco, glicose (leia-se doces), massas, substâncias ilegais como heroína, crack, maconha, ecstasy, lança-perfume, cocaína entre outros.
A sociedade indubitavelmente tem uma parcela de culpa e responsabilidade para com os viciados.
Nos jovens drogados pela sua falta de pulso, inapetência educacional, oferecimento de um ambiente libertino e/ou de afeto e religiosidade duvidosos, quando não apenas ausentes ou equivocados.
No caso do obesos, salvo vítimas de deficiências metabólicas congênitas ou hereditárias, pela permissividade de sua legislação e acrítica frente as empresas produtoras de “alimento”, que conscientemente ou não, transformaram o ato de se alimentar no “Éden eterno” de prazer e realização em um mundo estressante, individualista e demasiadamente dinâmico. Onde impera o fast-food, os biscoitos de chocolate entupidos de gordura hidrogenada, salgadinhos hiper-calóricos repletos de sal e conservantes. Entre outras maravilhas ao palato que transitam de gelados milk shakes as quentes e suculentas frituras e pedaços de picanha na brasa.
Também existem os alcoólatras e fumantes, vitimados pela sua falta de bom senso e/ou espírito crítico e/ou tendências biológicas entre outros, que se deixaram viciar em drogas legalizadas ao se levarem pela propaganda de empresas e do boca-a-boca, trocando seu dinheiro e qualidade de vida, pelo status estúpido de dependente de um produto que além de um prazer rápido, só lhe trará na melhor das hipóteses prejuízo financeiro e na pior, uma imensa lista de mágoas, sofrimentos, danos e arrependimentos.
Mas além dos vícios aparentes nos quilos extras, overdoses acidentais e vexames sociais, existe um cepa obscura, aparentemente inócua e que se desenvolve na calada da noite, nos agarrando sem que percebamos e muitas vezes causando danos terríveis. Estes são os vícios intelectuais.
Se compreender o funcionamento do cérebro e seu sistema de recompensa já é difícil, em questões de vícios em substâncias com potencial psicoativo, que bem ou mal nos proporcionam prazer físico, como será que se explica um vício intelectual?
Bom, existe uma grande diversidade deles. Sendo os mais famosos e também hilários:
- A síndrome de “São Tomé” – Uma tendência patológica de desconfiança em tudo e em todos, que quando moderada é importante para policiais, juízes e jornalistas, mas que se torna danosa ao alcançar picos de exagero, quando frente a provas, teorias embasadas, cálculos matemáticos e apresentação de evidências. Resume tudo a “intrigas da oposição”, “conspirações” e ou em casos extremos, a ação efetiva do Demônio ou de homenzinhos verdes.

- A síndrome do “Ducontra” – Uma tendência mais irritante do que patológica, em que o individuo discorda de absolutamente todas as defesas que ouve a respeito dos mais diversos assuntos, crente de que conhece respostas para tudo, na maioria assustadora das vezes baseando se só e puramente em achismos profundos como uma poça, que jamais caem ou secam, mesmo frente às argumentações mais racionais, embasadas e pacientes.

- A síndrome da pré-negativa literária – Uma patologia cruel para os amantes ou meros interessados em leitura ou literatura em que a pessoa doente sofre de uma sistemática necessidade de negar indicações de livros ou a existência e importância dos mesmos, com o argumento “odeio ler”, “isso não serve pra nada” e “pra que iria perder meu tempo com isso”, e se não bastasse desfaz, zomba e socialmente taxa de nerd quem gosta de ler, acreditando do alto de sua ignorância que todos já nascem com todo o conhecimento relevante de mundo em suas cabeças, necessitando apenas que de vez em quando se atualizem em algum programa humorístico da Globo.

- O vício de linguagem – Este é o mais preocupante e subdividido, possuindo cepas específicas que impregnam grupos sociais, classes, tribos jovens e ramos ideológicos. Seu poder de destruição é diretamente proporcional a importância que o discurso oral tem para o individuo contaminado. Os mais famosos são:

- Tipo assim = Comum em jovens patricinhas e jovens descolados de classe média alta independente de gênero;
- Cara = termo já transformado em padrão por grande parte da população que substitui o tradicional “individuo”. Ainda que dê um “que” de meliante ao terceiro indicado em um história ou causo sendo contado a um quarto ser humano;
- Só = Quase exclusividade de consumidores sistemáticos da planta Cannabis, vulgo maconheiros. Substituição universal para quase todas as expressões e colocações críticas, intelectuais, emocionais e de manutenção do canal de comunicação. O dicionário Houaiss tornou-se ultrapassado para seus usuários, seja por falta de necessidade prática, seja por situação de incapacidade ou lesão cerebral avançada.
- Né = considerado um dos piores vícios de linguagem, exatamente por ter escapado de seu original grupo de afetados, a comunidade japonesa recém ou mal adaptada ao português corrente. Configura-se em além de ser uma expressão de afirmação interrogativa, um som ou expressão inconsciente para a manutenção do canal de comunicação aberto, substituindo expressões como “huuum”, “então”, e “ahhh”. Tem impacto direto na seriedade do assunto tratado pelo usuário,sendo cruel, pois este não percebe a utilização do termo.

Enfim, o que explica um vício?
Basicamente a falta de policiamento social e individual de todas as pessoas, sua confiança demasiada em si mesmas (levar-se a sério demais), a falta de preocupação com o próximo e de compreender que o mundo e nossas responsabilidades não terminam só e simplesmente no limite de nossos interesses.
Talvez seja difícil e por vezes ingrata a tarefa, mas atentar uma pessoa aos riscos de ela estar a enveredar pelo caminho da dependência alcoólica por tomar muitas e repetidas doses de bebidas alcoólicas nos Happy Hour’s da empresa, avisá-la dos perigos de que saia com companhias com históricos negativos, de ser adepta de ideologias ou estilos de vida que focam-se na busca por prazer acima de tudo, entre outra miríade de possibilidades. Pode ser ingrato, para alguns ingerente, mas é uma atitude que se espera, pelo menos entre amigos.
E será a mesma atitude que irá criticar/avisar sobre vícios intelectuais, gerados muitas vezes por desatenção ou falta de pensamento crítico, colaborando no aperfeiçoamento dos indivíduos e indiretamente de toda a sociedade.
O texto acima pode parecer por vezes irônico e bem humorado, o que é proposital, mas a mensagem é que vícios são muitos e diversos, mas na maioria das esferas há formas da sociedade e dos indivíduos ajudarem-se em maior ou menor escala.
Eu pessoalmente agradeço a minha irmã, que identificou esses dias um vício de linguagem que nem percebi que possuía.... e que é relativamente novo, pelo menos até onde pude verificar..... o vicio do “Né” ...está sendo uma recuperação complicada, pois ele é usado na manutenção do canal de comunicação aberto, em geral quando estou preparando o resto de uma vocalização mais complexa. Acredito que talvez ele tenha ocorrido em minha última entrevista de estágio mal fadada, mas não percebi, se ocorreu, pode ter sido um real elemento negativo e que quem sabe gerou minha "eliminação".
Felizmente tenho quem me policie quando meu inconsciente está distraído. E você, tem? Se não, arranje alguém, pois a busca do aperfeiçoamento é um serviço individual, mas não necessariamente solitário. E ninguém é perfeito... pelo menos nenhum humano desde Cristo!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

40 anos de homem na Lua!

Por: Dalton Almeida

Na ressaca das comemorações dos 40 anos da chegada do homem a Lua, o bem humorado blog de um colega me convidou para um Podcast, lá dou meu parecer para a pergunta que nunca cala "O Homem pisou ou não na Lua?".

O som da ligação infelizemente não ficou muito claro, mas fazer o que.... serviço da Telefônica é mesmo essa tristeza.

Acessem o link abaixo:

http://magnando.blogspot.com/

E ouçam a postagem de hoje.

Abraços

A irracionalidade tragicômica

Por: Dalton L. C. de Almeida

Como definir um sentimento? Há séculos a ciência, a religião e o senso comum batalham para encontrar respostas que esclareçam a nós humanos por que e para que, a alegria, a raiva e a tristeza, entre tantos outros sentimentos existem. No teatro grego estes viraram máscaras e em nossa sociedade, por vezes, tabus.
O curta metragem Amor! de José Roberto Torero discorre exatamente sobre este sentimento por vezes considerado comum, mas que foi responsável por grandes acontecimentos na história, desde a queda de Tróia, iniciada pelo amor do príncipe Páris por Helena a até o grande sacrifício de Cristo voltado a obter a comunhão e salvação da humanidade.
O amor no curta de Torero, ao contrário da imensa gama de possibilidades de ângulos de abordagem, inclusive os grandes exemplos citados anteriormente, não se foca em um exemplar caso envolvendo personagens conhecidos ou poderosos. Pelo contrário, volta-se as histórias de amor que podem ser consideradas banais, por um grande público em geral esquecido, que a vida fora da ficção pode ser bela, exatamente devido a sua simplicidade, paradoxalmente rica e profunda.
Amor! ao seu modo, busca através da história de vida do casal Apolo e Diana, permeada por rápidas histórias de amor inusitadas, como a de um padre e uma atriz pornô e por definições técnicas do que é este sentimento, por especialistas como cientistas e até uma alcoviteira, mostrar a imensa riqueza e por vezes irracionalidade tragicômica, de um sentimento que a grande maioria das pessoas busca e idealiza.
Arrancando muitos risos ao mesmo tempo em que leva o público a pensar, Amor! agarra os espectadores e os seduz, apresentando-lhes um ângulo diferente do que no geral é considerado um sentimento positivo. E deixando-o com a seguinte pergunta: Será mesmo o amor tão belo? Cabe ao espectador, se conseguir, dinamitar por si, o tabu da “positividade” intocável de tal sentimento. Conseguirá?

sábado, 18 de julho de 2009

Correa e as Farc

Leia essa notícia divulgada nessa sexta pela agência Reuters. Comentário no final.

Líder das Farc revela apoio econômico a Correa

BOGOTÁ/QUITO (Reuters) - Um comandante militar das Farc afirmou que o maior grupo guerrilheiro colombiano colocou dinheiro na campanha do presidente do Equador, Rafael Correa, segundo um vídeo em que aparece o líder rebelde e cuja existência foi confirmada nesta sexta-feira pelo Ministério Público.

O governo equatoriano reagiu poucas horas depois negando qualquer tipo de vínculo com a organização guerrilheira e exigiu da Colômbia a demonstração da veracidade da fita, acusando-a de organizar uma ofensiva política contra o Equador.

"O governo do presidente Correa não tem relação e nem recebeu investimentos das Farc", disse o ministro de Segurança Interna e Externa, Miguel Carvajal, em nota no site da Presidência na Internet.

"É uma campanha midíatica, não é nova (...) É parte de uma ofensiva política contra o país", acrescentou Carvajal à rádio Quito.

No vídeo, exibido por canais de TV, Jorge Briceño, o "Mono Jojoy", fala num acampamento para um grupo de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

A fita de vídeo foi obtida no apartamento de uma guerrilheira detida há alguns meses em Bogotá.

Briceño afirma que houve "ajuda em dólares à campanha de Correa e conversas posteriores com seus enviados, incluindo alguns acordos, segundo documentos" em poder do grupo.

O porta-voz do Ministério Público disse que o vídeo está com a polícia judicial.

Os governos de Quito e Bogotá se enfrentaram nas últimas semanas em um novo capítulo de acusações mútuas, após um juiz ordenar a prisão do ex-ministro da Defesa colombiano, Manuel Santos, por ter liderado uma operação militar contra as Farc em território equatoriano.

Comentário:

Por Gutierres Siqueira

Correa é ligado ao Forúm de São Paulo, uma organização esquerdista latino-americana que reúne os partidos socialistas dessa região, incluindo as Farc. Como ele pode negar um vínculo com esse grupo terrorista? Não só ele, mas Chávez e Evo Morales são também fortemente ligados as Farc. Isso já foi mostrado pelo governo colombiano. A ideológica e vergonhosa diplomacia do governo Lula, que é ligada ao Forúm de São Paulo, ainda hoje não considera as Farc um grupo terrorista.

A morte da contestação

Por Gutierres Siqueira

Fiquei pasmo quando li que a UNE do Maranhão está apoiando o Sarney. Isso é o fim dos tempos. Estudantes “revolucionários” apoiando o oligarca bigodudo que ama o coronelismo e o fisiologismo? Estudantes “revolucionários” apoiando a Petrobrás, uma multinacional do petróleo? Hehehe é mesmo o fim! Não se faz mais comunista como antigamente! Aliás, os comunistas nunca foram coerentes mesmo!

Vocês viram o Lula abraçando o Collor? Viram o Lula agradecendo o apóio de Renan Calheiros (o coronel alagoano)? Meu Deus, em breve aparecerá o anticristo! Rsrs O apocalipse chegou! Lula apóia os dois maiores coronéis desse país, que é Sarney (dono do Amapá e do Maranhão) e Renan (dono de Alagoas). Por coincidência são os Estados mais miseráveis desse país.

Isso tudo representa a morte da contestação. Um Estado que ama o jeitinho, unindo inclusive os maiores inimigos de décadas passadas. Lula é aético, ele não sabe discernir entre o certo e o errado, entre a moral e o imoral, para ele tudo é igual! A UNE é a mesma coisa. Ama suas ideologias esquerdistas e quando a esquerda rouba logo falam que os fatos são invenção da imprensa “golpista”.

domingo, 12 de julho de 2009

Há, há, há... O continente da piada pronta!

Por Gutierres Siqueira

Só mesmo na América podemos ver isso. Fidel Castro, o ditador moribundo, escreveu um artigo para o jornal comunista Granma nesse último sábado, em que pede a imediata restituição do poder a Manuel Zelaya, o chavista hondurenho. Castro alerta:

Se o Presidente Manuel Zelaya não for reinvestido nas suas funções uma onda de golpes de Estado ameaça varrer muitos governos na América Latina, ou eles estarão à mercê da extrema-direita militar, formada na doutrina de segurança da Escola das Américas, especialista em tortura, guerra psicológica e terror.

Será que eu entendi direito? Castro está preocupado com a possível proliferação de ditaduras na América Latina? Há, há, há... Só mesmo sendo uma piada. Um ditador preocupado com novos ditadores. Sínico, fala em tortura. E os torturados pelo regime cubano que não concordaram com a “revolución”?

Não há nada pior do que a hipocrisia de um ditador.

sábado, 4 de julho de 2009

As incoerências na crise hondurenha

Por Gutierres Siqueira

Todos já sabem que o então presidente Miguel Zalaya foi retirado do seu cargo por desobediência à constituição de Honduras. Zelaya desobedeceu a ordens da Suprema Corte e do Congresso e tentou usar indevidamente as Forças Armadas na tentativa de levantar uma nova Assembleia Constituinte (algo que é taxativamente proibida pelas leis desse país). Mediante a sua expulsão, o mundo todo está criticando o governo interino de Honduras. Agora, nem tudo é simples como parece. Há inúmeras incoerências sobre a crise em Honduras:

A) O nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou o governo interino de Honduras, em meio aos mais perversos ditadores que ainda vivem. Que lindo falar em “democracia” na cúpula da União Africana (UA), ao lado do terrorista Muamar Kadafi, do assassino Robert Mugabe e do sanguinário Omar al-Bashir. O simpático ditador Mahmoud Ahmadinejad foi convidado, mas como é “furão de festa” acabou faltando...

B) A OEA (Organização dos Estados Americanos) estuda a expulsão de Honduras e quer a volta de Cuba (Cada uma!). Ontem, inclusive, o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, iniciou uma greve de fome na sede da OEA na Venezuela para protestar contra a “instabilidade democrática” vivida naquele país. Será que a OEA nada falará sobre as 240 rádios AM e FM fechadas, nessa semana, pelo semiditador Húgo Chávez?

C) O governo diplomático de Barack Obama falou manso com os abusos e mortes no Irã e agora fala com autoridade diante da situação em Honduras. Não só Obama falou “grosso” com Honduras, mas também a própria ONU. Mas com Irã ninguém tem coragem de falar seriamente! É fácil bater em gato morto!

Hoje, o jornal “O Estado de S. Paulo” publicou um artigo escrito por Octávio Sánchez, ex-assessor do governo hondurenho (2002-2005), onde ele contesta essa história de golpe e diz que a ação militar naquele país está baseada na legalidade e na defesa da constituição.

Torço para que os militares não caiam na tentação de transgredir o “Estado de Direito” e mostrem para o mundo que em Honduras é possível uma democracia sólida!

terça-feira, 16 de junho de 2009

24 Horas e os seus dilemas

Por Gutierres Siqueira

Os produtores da famosa série 24 Horas inovaram. Antes da sétima temporada lançaram um filme para a TV intitulado em português como 24 Horas: A Redenção. O longa-metragem serve, portanto, como uma introdução da nova temporada. Então, para quem está assistindo a temporada atual, é imprescindível que antes veja o filme.

24 Horas: A Redenção foi criado diretor Jon Cassar para que o público não se desacostumasse com as histórias de Bauer, já que esse novo ano veio com atrasos por causa da grave dos roteiristas. O filme acontece em tempo real em meio a muita ação entre 15 às 17 horas.

Em Sagala, um país fictício do continente africano, Jack Bauer (Kiefer Sutherland) refugia-se em uma pequena comunidade de crianças órfãs que são cuidadas pelo missionário estadunidense Carl Benton (Robert Carlyle). Bauer busca sua redenção após as suas conturbadas relações amorosas e familiares, além da fuga de acusações de tortura e desobediência presidencial.


Mesmo escondido nesse acampamento missionário, Bauer é intimado pelo oficial da embaixada norte-americana em Sangala, Frank Tramell (Gil Bellows) para comparecer aos Estados Unidos e responder as acusações. Bauer nega-se a voltar aos Estados Unidos e prefere fugir para outro lugar.

No mesmo momento acontece nos Estados Unidos a posse da presidente Allison Taylor (Cherry Jones). Algumas horas antes da cerimônia oficial Allison Taylor é informada pelo ainda presidente Noah Daniels (Powers Boothe) que não fará uma intervenção militar em Sangala, apesar do apelo do primeiro-ministro sangalês Ule Matobo (Isaach De Bankole), que está preocupado com o iminente golpe de estado promovido pelo general sanguinário Benjamim Juma (Tony Todd).

Roger Taylor (Eric Lively) filho da presidente possui um amigo problemático, chamado Chris Whitley (Kris Lemche), que começa a desvendar um esquema fraudulento envolvendo nomes poderosos da cúpula militar privada dos Estados Unidos, como Jonas Hodges (Jon Voight), um poderoso empresário da companhia militar privada Starkwood.

Hodges promove um total apóio tático para que o General Benjamin Juma efetue um golpe militar em Sangala. Juma utiliza crianças com parte do seu exército e os seus militares invadem a propriedade do missionário Benton para capturar as crianças daquele local. Porém, lá ainda estava Jack Bauer que ajuda essas crianças a caminharem até a embaixada norte-americana.

“Contra o imperialismo americano”


Os militantes do general Juma convencem as crianças que elas estarão lutando contra as “baratas” dos imperialistas americanos para a real libertação de Sangala. Essa abordagem mostra uma realidade de muitos ditadores em países pobres, que exploram suas populações usando a justificativa de combater um império (ou inimigo externo). Essa abordagem lembra certamente o presidente do Zimbábue, o ditador Robert Mugabe e outros líderes que se apóiam numa ideia maniqueísta para justificar suas atrocidades.

Assim como no filme Diamante de Sangue, A Redenção explora o sério problema humanístico do uso de crianças como soldados dessas guerras civis. Algumas instituições de direitos humanos denunciam a existência de 300 mil de crianças-soldados, principalmente no continente africano e na faixa de Gaza, que são normalmente exploradas por ditadores ou grupos terroristas, como o Hamas. Mas próximo da realidade brasileira, documentários como Falcão-Meninos do Tráfico expõem a cruel demanda do tráfico por crianças e adolescentes nos morros cariocas.

Sétima temporada em Washington, D. C.


O cenário já não é mais Los Angeles, mas sim a capital federal Washington. Jack Bauer está de volta, agora no senado americano sendo julgado pelas acusações de tortura. A CTU (Counter Terrorist Unit, ou Unidade Contra-Terrorismo) já não existe. Apesar de tudo diferente, os Estados Unidos continuam debaixo de uma ameaça terrorista. Porém, a ameaça é interna, do ressuscitado ex-agente da CTU, Tony Almeida (Carlos Bernard).

Também, na sétima temporada o braço direito de Bauer não é Chloe O'Brian (Mary Lynn Rajskub) ou Bill Buchanan (James Morrison), mas sim a agente federal Renne Walker (Annie Wersching). Walker sofrerá bastante com conflitos profissionais ao acompanhar Bauer em sua jornada contra o terrorismo iminente e a problemática da tortura.

Agora, quem cuida dessas ameaças é o FBI, que contará com Bauer para ajudar na captura dos terroristas. Nessa nova fase o terrorismo passa tanto pelas mãos de Tony Almeida, como do general Benjamim Juma e o seu companheiro general Iké Dubaku (Hakeem Kae-Kazim). Além dos terroristas africanos, todo o apóio parte de agentes corruptos do governo americano, do FBI e das empresas militares privadas, entre eles o poderoso Jonas Hodges.

O dilema da tortura

As torturas, como em todas as temporadas causam um mal estar na vida de Jack Bauer e nos seus relacionamentos profissionais, mas nesse sétimo dia, Bauer continua torturando, com suas alegações dos fins justificando os meios. Ao contrário da leniente CTU, Bauer encontra forte oposição do FBI quanto à tortura, especialmente do agente especial Larry Moss (Jeffrey Nordling). No decorrer da temporada, Bauer vai “convencendo” que essas “técnicas” são métodos eficazes para aqueles que o acompanham, especialmente Renne Walker. A grande pergunta é se Bauer fará escola no FBI?

O Bauer da era George W. Bush é o mesmo Bauer da era Barack Obama. Quem acha que a série seria captada pelo “politicamente correto” já se decepcionou nos primeiros episódios. O instinto desse ex-agente da CTU está na captura e destruição de qualquer terrorista. Aliás, somente alguém baseado em uma visão irrealista de política internacional, achará que as necessidades belicistas dos EUA mudarão simplesmente pela boa vontade do novo presidente. Acima dos sonhos encarnados no Obama, há o pragmatismo desse líder mediante dos desafios enfrentados no planeta.

Tortura serve para alguma coisa?

Jamais uma resposta afirmativa será dada para tal pergunta. Agora, algumas questões podem ser levantadas para esse debate. Segundo relatórios da CIA o terrorista da Al-Quaeda, Khalid Shaikh Mohammed, capturado pelo exército americano no início de 2008, sabia de planos para um novo ataque ao território dos EUA. Khalid sofre na base de Guantánamo a técnica de tortura chamada de waterboarding (simulação de afogamento) por 183 vezes, e revelou informações suficientes para o desmonte de uma célula da Jemmah Islamiyah, com 17 membros. Certamente essa confissão sob tortura salvou milhares de americanos. Mas é ético? Os fins justificam os meios?

Bauer lida com isso. Os idealizadores da lei criaram tais preceitos para o bem da sociedade, e a lei está acima de um ônibus com quinze passageiros na mão de terroristas. Bauer encara que a tortura é um erro que chama outro, mas uma vez efetuado pode salvas vidas.

O produtor da série 24 Horas, Joel Surnow, em entrevista para a jornalista Jane Mayer da revista The New Yorker, declarou: "Recentemente, estiveram aqui vários especialistas em tortura, e eles falaram 'Vocês não têm idéia do número de pessoas que é influenciado por isso. Tomem cuidado'. Eles dizem que a tortura não funciona. Mas eu não acredito. Não acho que seja honesto dizer que, se uma pessoa amada estivesse presa, e você tivesse cinco minutos para salvá-la, você não usaria tortura. O que você faria? Se alguém tivesse raptado uma das minhas filhas, ou a minha mulher, eu iria querer ter a oportunidade. Não existe nada - nada - que eu não fosse capaz de fazer”.


Bauer lida com isso. Os idealizadores da lei criaram tais preceitos para o bem da sociedade, e a lei está acima de um ônibus com quinze passageiros na mão de terroristas. Bauer compreende que a tortura é um erro que chama outros erros.

OBS: Esse artigo foi publicado originalmente como o título “24 Horas longe do fim” na Revista IKONE, uma publicação acadêmica para as aulas do 5° semestre de jornalismo.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Textos Comentados: A obamanização do mundo

Por João Pereira Coutinho*

Estou cansado da obamanização do mundo. Inventei agora a palavra. Vocês sabem o que ela significa: a obamanização consiste em substituir a realidade pela fantasia, esperando que nos quatro cantos do globo surja sempre um candidato capaz de imitar a retórica bondosa e evangelista do original Barack.

Aconteceu agora no Irã. Li os jornais disponíveis. Acompanhei as reportagens televisivas. O tom era semelhante: pela primeira vez desde 1979, altura em que Khomeini deixou o seu exílio dourado em Paris para regressar a Teerã, os iranianos iriam escolher novo presidente. Pior: iriam escolher um "moderado" (Mousavi) por oposição a essa grotesca criatura chamada Ahmadinejad.

A fantasia esquecia dois pormenores básicos, quase dolorosos. Primeiro: o Irã não é uma democracia. O Irã é uma teocracia, o que significa que as decisões (iniciais e finais) pertencem ao Líder Supremo, Khamenei.

É o Líder Supremo quem escolhe os candidatos presidenciais. Em todas as eleições, aparecem centenas ao cargo. Esse ano, foram 485 candidaturas. Quatro foram selecionadas, depois de verificação apertada, ou seja, depois de se verificarem os créditos revolucionários dos quatro candidatos, rigorosamente do sexo masculino e rigorosamente muçulmanos xiitas. Mas a influência do Líder Supremo não termina aqui. O Líder Supremo, independentemente do resultado da votação, escolhe o presidente do Irã. Os iranianos que foram às urnas são apenas figurantes de um teatrinho sórdido.

Mas há mais. Nos últimos dias, surgiu igualmente a fantasia de que Ahmadinejad poderia ser derrotado por um "moderado". E quem é o moderado? Precisamente: Mir-Hossein Mousavi, um antigo primeiro-ministro de Kohmeini, responsável pela execução maciça de opositores políticos na década de 80 (20 mil? 30 mil?). Alguns jornalistas, sem um pingo de vergonha na cara, chegaram mesmo a acrescentar que Mousavi iria inaugurar um novo período de relações amigáveis com o Ocidente e, pasmem, Israel. Para os relapsos, relembro que Mousavi esteve envolvido no atentado terrorista ao centro cultural judaico de Buenos Aires. Morreram 85 pessoas.

E agora? Agora, coisa nenhuma. A vitória de Ahmadinejad, seguramente forjada, cumpriu na perfeição o roteiro pré-definido pela teocracia iraniana. O que significa que, depois dos Guardas Revolucionários fazerem o seu trabalho, prendendo ou espancando os manifestantes, o Irã continuará o seu glorioso caminho rumo à pobreza, à opressão das suas minorias e, claro, à bomba nuclear, para uso cirúrgico contra Israel. A obamanização do mundo é uma idéia simpática. As idéias simpáticas, pelos vistos, não chegam a Teerã.

* João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online, e às terças-feiras para o caderno Ilustrada.

Comentário

Por Gutierres Siqueira

Enfim, João Pereira Coutinho mostra com maestria como o mundo vive uma fase de messianismo político. Os messiânicos acreditam que elegendo os “homens certos”, o mundo será um lugar melhor. É temerário como o ser humano tem uma facilidade incrível em depositar esperanças em estadistas. Daí nasce ditadores que se portam como salvadores. A saudável desconfiança nos governantes morre a cada dia, principalmente depois da vitória do messias Obama.

No Brasil assistimos o slogan “a esperança venceu o medo”. Nos Estados Unidos contemplamos o “sim, nós podemos”. Nada mais infantil, do que a credulidade em homens que detêm o poder de grandes nações. A esperança é boa, mas a ingenuidade é mortífera.

Nesses últimos dias, a imprensa “oba” “oba” louvou o “moderado” Mir-Hossein Mousavi. Aliás, existe moderação é uma teocracia (lê-se clerocracia) islâmica? Difícil. Hoje o governo americano fala até em negociação com um “Talibã moderado”. O que é isso? Ah sim, talvez o “talibã tradicional” mata uma mulher “transgressora” com pedradas ao vivo em estádios, e o “talibã moderado” mata com pedradas, mas sem espetáculos. Ridículo. Não existe moderação com mulçumanos fanáticos que cresceram aprendendo que louvam a Alá quando matam os infiéis, ou seja, os ocidentais.

Portanto, Mousavi e Ahmadinejad são nada mais do que fantoches na teocracia iraniana. Farinhas do mesmo saco!

domingo, 14 de junho de 2009

Reportagem: Vendendo o seu produto

Por Gutierres Siqueira com Fernanda Silvestre (do Blog Jornalismo Literal)

Personagens diferentes no ambiente massificado por pessoas “iguais”

A busca por uma personagem pode ser trabalho árduo a um jornalista. Ainda mais se essa personagem possui uma vida nômade e ligeiramente excêntrica. Ao passar diariamente pelo Conjunto Nacional, podemos encontrar uma figura no mínimo curiosa. Imagine a cena: um Hare Krishina meditando no meio do Conjunto Nacional, em plena Avenida Paulista, a maior avenida do país e também a mais agitada e caótica.

Indiferente à agitação do trabalhador neurótico paulistano, o pequeno Hare Krishina, todas as manhãs, com sua já surrada túnica laranja e pés descalços adentra o Conjunto Nacional e senta-se em um banco próximo à escada rolante que dá acesso ao Cine Bombril. Respira fundo, cruza as pernas em formato de lótus, fecha os olhos e começa a meditar. Lá fica por horas. Quem passa por ele olha com um ar curioso, espantado, muitas vezes achando-o louco.


Sem se importar com a cidade que gira lá fora, nossa personagem flutua em seu nirvana particular. Careca, com um rabicó na nuca todo trançado e aparentemente com idade aproximada de 40 anos, o seguidor do deus indiano que dá nome à religião, depois de muito meditar, abre os olhos, tira alguns livros de uma bolsa-sacola e sai do Conjunto, posicionando-se na esquina da Paulista com a Hadock Lobo, a poucos metros do metrô Consolação.

Às cinco horas da tarde o movimento da Paulista é intenso. Executivos, oficce boys, secretárias, diretores e a mais variada fauna de trabalhadores urbanos estão no fim do expediente e começam a se aglomerar na rua, lutando por um espaço na calçada. E lá está o Hare Krishina, com sua inseparável sacola de livros. Começa a abordar os apressados passantes da Paulista. Quer ler os ensinamentos de sua religião para os “homens sem fé”. Quase ninguém lhe dá atenção. Acham que ele quer vender os livros. Um rapaz com porte de modelo para. Ligeiramente e com os olhos arregalados, ele folheia um dos livros com uma rapidez absurda, a procura de um trecho que caiba perfeitamente para aquela pessoa e aquele momento. Começa a ler e fazer movimentos com a mão direita, como se fosse um profeta. A mão esquerda segura o livro. O rapaz presta atenção na leitura, parece interessado. Depois de cinco minutos, o Hare Krishina faz uma reverência a seu saudoso ouvinte que agradece e segue seu caminho. O singular homem franzino se vira e retoma as abordagens.

A história desse homem, caricata figura do Conjunto Nacional merece ser contada. Traçamos um roteiro para encontrá-lo, observá-lo para termos maior riqueza de detalhes e tentarmos uma entrevista com ele e assim conhecermos sua vida, suas crenças e seus caminhos de andarilho.

Começamos a busca em uma sexta-feira. Nenhum sinal do Hare Krishina durante todo o dia. Segunda-Feira marcamos logo cedo para uma nova tentativa. Mais uma vez, nosso personagem estava ausente. Esperamos por um longo tempo. Andamos pelo quarteirão, na esperança de vê-lo lendo suas profecias a algum pedestre. Sem sucesso, por volta das onze da manhã, fomos até a Livraria Cultura, maior atração do Conjunto Nacional. Analisando a estante de livros sobre comunicação, divagávamos sobre ideologias e o futuro da imprensa. Achamos perdido em meio a uma infinidade de livros, um pequeno ensaio sobre Luiz Carlos Prestes, escrito por sua filha Anita Leocádia. Leituras interessantes foram montando nossa “cesta de compras”. No andar superior da livraria, paramos na sessão de esportes. Como poderíamos imaginar que existia um livro intitulado “Como escolher os melhores peixes para o seu aquário”. As surpresas não paravam de aparecer. Em maio a mais uma discussão entre direita e esquerda, começamos a falar sobre o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Divagando sobre sua importância, somos então abordados por um senhor, que nos pergunta se somos alunos de história. Respondendo que não, ele revela que foi aluno de Sérgio Buarque de Holanda e nos conta sobre a importância histórica da obra de seu professor para o Brasil. Voltando-se novamente para a prateleira de livros de Sociologia, o homem começa a folhear um espesso livro. Concluímos que em São Paulo podemos encontrar grandes personagens aonde quer que possamos estar.


Sem notícias do intrigante Hare Krishina, seguimos para o bairro da Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, onde mais uma figura singular da cidade trabalha. Chegando por volta das 13 horas, nos deparamos com seu espaço de trabalho (o topo da escadaria do metrô), vazio. Estávamos definitivamente sendo abandonados por nossas personagens.

O Hare Krishina realmente sumiu. Por mais dois dias voltamos ao local e nada desse personagem, não sabemos o seu paradeiro, pois por toda a Avenida Paulista não há um sinal de suas meditações. Porém, a vendedora de chocolate não demorou em voltar para o seu lugar. Depois de dois dias pudemos conversar com a camelô mais famosa da estação, e logo descobrimos o motivo de sua repentina sumida: a fiscalização mais intensa da guarda contratada pelo metrô paulista.

Vida de vendedor ambulante

Todos os dias milhares de pessoas passam apressadas pelas estações de metrô na cidade de São Paulo. Entre essas pessoas estão muitos que nem percebem o contingente de vendedores ambulantes, que fazem sua vida por meio de pequenas vendas, seja desde um churrasco até milho cozido.

Eles disputam espaço vendendo os seus produtos em pequenas barracas improvisadas, porém de fácil manejo para fugir dos guardas que fazem a segurança do metrô. Cada um possui o seu canto que é delimitado de forma invisível. Entre alguns vendedores ambulantes do metrô Vila Mariana há uma que se destaca por seu famoso bordão marqueteiro: - “Leve o chocolate”!


Gonçala Ferreira da Silva, maranhense, natural de uma pequena cidade chamada de Pio XII, veio para São Paulo há 16 anos. Quanto à idade ela diz que tem 4.3, ou seja, um eufemismo para falar sobre os anos de vida, mas Gonçala diz não se importar em revelar quantos aniversários já fez na vida. Gonçala, portanto, é mais uma migrante entre milhares que buscam na capital paulista uma vida melhor. Mas, segundo dados recentes, esse fluxo migratório diminui a cada ano, pois hoje a atração para os trabalhadores brasileiros são as cidades de médio porte, que recebem moradores de pequenos municípios e até das metrópoles.

Gonçala está todos os dias, faça chuva ou faça sol. Quando o frio aperta, não deixa de usar a sua toca tipicamente russa. Costuma vender sozinha, mas às vezes está conversando com uma de suas colegas camelôs. Normalmente de braços cruzados olha para o horizonte, como se estivesse desatenta. Mas não, sempre muito esperta, atende rapidamente os seus clientes.

Diante dos perigos da rua, ela diz que nunca foi assaltada, mas já presenciou muitos assaltos na porta do metrô. Muitas vezes ela é abordada por pessoas pedindo dinheiro ou simplesmente com a história que “perderam” suas passagens e que precisam voltar para suas casas. Gonçala, experiente com as ruas, não atende esses pedidos.

Mãe solteira e com poucos parentes e amigos na Grande São Paulo, Gonçala trabalhou pouco tempo com carteira assinada, efetuando serviços como emprega doméstica. Depois, já na Vila Mariana, passou a trabalhar nas ruas vendendo os cigarros paraguaios, que são facilmente adquiridos nos atacados no centro da cidade. Nesse mercado, passou somente dois anos e então resolveu vender chocolates.

Gonçala tem um filho de 13 anos. Esse pré-adolescente ajuda sua mãe desde os quatro anos. Estudante da rede pública, não fica todo o dia com a mãe, somente quando possível. Os dois moram em Heliópolis, a maior favela da capital paulista, que aos poucos recebe uma ampla estruturação urbanística. Entre o trabalho e a sua casa, ela gasta um pouco mais de trinta minutos. Gonçala trabalha todos os dias das 17h até meia-noite. Porém, nos últimos dias tem saído mais cedo, por volta das 22h30, devido à intensa fiscalização no final da noite.

Esta forçada saída de duas horas mais cedo tem preocupado Gonçala. Um horário muito bom de vendas, que é a vinda dos estudantes de suas universidades, tem sido abortado pela fiscalização. Para complementar a renda, Gonçala trabalha ainda como vendedora dos produtos Natura e Avon, além do trabalho de manicure aos finais de semana.

Gonçala, ainda conversando sobre a vida de camelô, lembra que o tipo de venda mais arriscada nas ruas de São Paulo são CD`s e DVD`s piratas, até mais do que cigarros e os seus chocolates. A preocupação com os fiscais é constante. No início da conversa ela expressou até mesmo uma desconfiança e logo perguntou se não éramos uma espécie diferenciada de fiscais, ou mais conhecidos popularmente como “Rapas”. A preocupação não é à toa, pois a “Rapa” já tomou suas mercadorias por três vezes, ou seja, prejuízo total.

Marketing popular

Nesses últimos dez anos, a ambulante está praticamente todos os dias na porta da estação gritando o famoso “Leve o chocolate”. Gonçala, observando os camelôs da Rua 25 de março percebeu a disputa interessante entre cada um, apresentando por meio dos gritos os seus produtos. Resolveu imitá-los. Gonçala não lembra o momento exato que começou a usar o seu bordão, mas comemora o fato e diz que suas vendas aumentam, pois a sua frase desperta os passageiros desatentos, que logo percebem o seu chocolate.

A voz de Gonçala é inconfundível, assim como sua frase. Mas a sua estratégia de marketing não é uma unanimidade. Gonçala diz que se diverte, mas vê muitos imitando sua voz, principalmente grupos de garotos e garotas que saem das várias escolas presente na região. Além da imitação, ela relata que alguns acham simplesmente engraçado a sua fala e outros até se irritam. Gonçala diz que não se incomoda com as imitações em tom jocoso.

Ela revela que um jovem universitário já gravou sua voz com um MP3 e uma câmera filmadora. Esse jovem disse que ia colocar o material na internet. Após essa interessante descoberta, vimos que não somos os únicos despertados pelo “leve o chocolate”.

Ao final da conversa, que fluiu com mais facilidade do que o esperado, Gonçala desejou sorte e disse após a conclusão do trabalho, quer receber o endereço da web onde o texto será publicado. Ela quer acessar com o seu filho. Prometemos informá-la.

Observando esses personagens paulistanos como o Hare Krishina, o aluno do Sérgio Buarque de Holanda e a Gonçala Ferreira, vemos como todos procuram vender os seus produtos e as suas abordagens criativas. Um vende a sua fé, o outro a sua intelectualidade e a outra alguns chocolates. São Paulo é um lugar para vendedores.